O que o congestionamento faz você sentir?

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Congestionamento pode mudar o seu comportamento?

O que o congestionamento faz você sentir? Antes de chegar ao destino, o trânsito parado já atravessou o humor, a paciência e a maneira de ver o outro

Rotina

Imagine a seguinte situação: o semáforo abre. Ninguém anda. Alguém buzina antes mesmo de o pé sair do freio. Um motociclista passa entre as faixas. Um motorista fecha o vidro, outro abre o aplicativo para ver se existe um caminho melhor. São 8h17. O destino está a poucos quilômetros. Ao mesmo tempo, tão distante.

Minutos e espaço são disputados. O motorista ao lado, o motociclista entre faixas, o pedestre impaciente, deixou de ser presença para virar obstáculo. No engarrafamento, o outro não aparece como alguém que compartilha um destino, mas como ameaça ao pequeno avanço conquistado. Um metro à frente vira vitória; uma fechada vira ofensa.

Impaciência

Essa cena não é exceção; é rotina. Por isso, o congestionamento, consequência da vida urbana, enfrenta-se e reclama-se, acumulando cansaço, mas, ao mesmo tempo, também ensina, constrói comportamentos e é sentido. Além disso, não se trata apenas de excesso de carros; é excesso de impaciências, um espaço em que o corpo permanece alerta, o pé oscila entre freio e acelerador, e a mente busca escapar, pelo celular, pelo rádio ou mesmo pela irritação. Às vezes, não é somente a questão de chegar atrasado: é aprender a se relacionar com os outros quando tudo para.

Urgências

Dentro de cada carro há pequenas urgências: alguém segue para a última sessão de quimioterapia; outro acelera para uma consulta médica que não pode ser adiada; uma gestante vai em direção à maternidade; pais tentam levar os filhos à escola antes do início das aulas; trabalhadores, pressionados pelo horário, procuram recuperar minutos perdidos; e um entregador precisa chegar a tempo. Ou seja, cada veículo guarda uma história, um motivo para a pressa que intensifica a tensão do trânsito. Isto posto, o cenário revela um modelo de convivência já tensionado, no qual cada indivíduo tenta avançar carregando seu mundo particular.

Desrespeito

Quando o carro à frente não dá seta, você sente aquela fúria subir quase instantaneamente? O coração dispara, os ombros ficam tensos, a mão aperta o volante como se pudesse dobrá-lo, e a buzina escapa sem pensar. Você xinga, pois aquilo é claramente um gesto de desrespeito. E quando a buzina ecoa, a irritação aumenta, acelerando a respiração e tensionando cada músculo. Depois que o carro segue, a tensão vai embora ou permanece pronta para explodir no próximo gesto inesperado?

Experiências

O semioticista francês Éric Landowski, no livro Presenças do Outro (2002), propõe que a experiência da alteridade não é apenas cognitiva ou observável, mas relacional, mobilizando sensibilidade e afetividade. A percepção do outro é sentida e vivida, influenciando emoções, pensamentos e a compreensão de nós mesmos. Cada encontro carrega dimensões afetivas que moldam continuamente nossas experiências.

Saúde

Desgaste emocional, agressividade e cansaço crônico marcam o trânsito diário. Uma pesquisa da Universidade de Brasília (UnB), feita com parceiros nacionais e internacionais, mostrou que a precariedade da mobilidade urbana afeta a saúde física e mental dos condutores. Outro estudo, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), revelou que 43,5% dos motoristas brasileiros enfrentam congestionamentos diariamente, passando em média 32 dias por ano presos no trânsito. Nessas condições, os deslocamentos podem chegar a 127 minutos diários nas grandes cidades, aumentando o estresse e o desgaste psicológico.

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Reflexo

O congestionamento é coletivo, e o desgaste que sentimos cresce não apenas porque estamos parados, mas também porque não reconhecemos o outro como parte da mesma cena, já que falta uma apreensão compartilhada daquele tempo vivido. Além disso, a tecnologia ajuda, mas não resolve: aplicativos prometem rotas alternativas e minutos economizados; entretanto, perdem eficácia quando todos seguem a mesma sugestão. Assim, o congestionamento persiste, pois não é apenas um problema pessoal, mas um reflexo de um projeto coletivo.

Lógica do confronto

Enquanto tratarmos o trânsito como um jogo de esperteza, quem chega primeiro, quem desvia melhor, quem fura com mais habilidade, permaneceremos presos à lógica do confronto. Cidades que separam moradia, trabalho e serviços obrigam deslocamentos longos e simultâneos, tornando o congestionamento um sintoma urbano dessa configuração.

Convivência

Talvez a pergunta não seja “como fazer os carros andarem mais”, mas “como fazer as pessoas conviverem melhor enquanto se deslocam”. O deslocamento é um espelho incômodo no Brasil: reflete nossa dificuldade de compartilhar tempo e espaço. Mesmo que centenas compartilhem o mesmo trajeto, atraso e frustração, fica evidente a dificuldade de nos reconhecermos como parte de uma experiência comum. No fim das contas, a cidade nos treinou para competir, e não coexistir; para acelerar, e não esperar juntos.

Juntos: caminho certo

Enquanto tratarmos o engarrafamento apenas como problema técnico, continuaremos repetindo soluções que aliviam sintomas e preservam a causa. O trânsito seguirá insistente, pedagógico, lembrando que a cidade que construímos fala. E o que ela diz é que estamos juntos demais para viver isolados, isolados demais para seguir juntos.

Por Mauri Oliveira – Jornalista, Radialista, Mestrando em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e Pesquisador do Centro de Pesquisas Sociossemióticas (CPS).

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